Bem vindo, Camaçari, 18 de Novembro de 2017

Roque Santos: de vendedor de lanches a comunicador de sucesso

Escrito por: Sheila Barretto - Camaçari - 13 de Novembro de 2017

Roque Santos é radialista e dono do site Bahia no Ar (Foto: Sheila Barretto/CN)

Dando continuidade à nossa série de reportagens em alusão ao dia da Consciência Negra, hoje contaremos a história de um dos principais comunicadores da cidade.

Uma das personalidades negras mais atuantes em Camaçari na atualidade é o radialista Roque Santos. A nossa reportagem esteve nas instalações do Bahia no Ar, onde Roque contou sobre a sua vida no Recôncavo, como despertou o desejo de ser um comunicador e os desafios que enfrenta por causa da cor de sua pele.

Roque disse que se considera um rapaz sonhador que sempre acredita em dias melhores. Ele conta que iniciou a carreira profissional no rádio em 1998, na Rádio Clube de Santo Antônio de Jesus, no Recôncavo, onde nasceu e vivia com a mãe, dona Gildete Pereira dos Santos. O pai, o senhor Otacílio Honorato de Souza, morreu quando Roque tinha apenas 6 anos de idade.

O radialista diz que enfrenta desafios desde o primeiro dia em que tentou a sorte na principal emissora da cidade. “A Rádio Recôncavo, a principal emissora de Santo Antônio de Jesus, abriu oportunidade para novos radialistas, eu tinha 17, 18 anos na época. Quando eu cheguei lá na rádio, estava chovendo, eu cheguei em uma bicicleta BMX, todo sujo de lama, e aí me disseram que já tinha esgotado as oportunidades e eu lembro que pra mim foi uma frustração, porque posteriormente chegou uma pessoa de carro e conseguiu gravar”.

“Aquele momento foi o primeiro impacto, mas até ali a gente não tinha uma dimensão do que era preconceito, a gente ficou triste por não ter uma oportunidade. E aí aquela colega que gravou posteriormente perguntou por que eu não ia na Rádio Clube, que era um rádio menor, uma rádio AM. Então eu fui e me deram a oportunidade de trabalhar”.

Mas as coisas não foram assim tão fáceis. Roque disse que, por causa das deficiências técnicas que tinha, até por conta da falta de experiência, o padre, que era dono da rádio, o dispensou. O problema é que ele já havia espalhado para toda a vizinhança que era radialista. Ele conta que ia trabalhar vendendo lanche durante o dia e à noite ficava escondido em casa. Para se qualificar, ele começou a estudar.

“Naquele tempo não tinha a oportunidade que tem hoje de internet, o mundo aberto pra você. Eu lia recortes de jornal, revistas velhas e aí fui lendo e ouvindo outras emissoras, gravava em um gravadorzinho que eu tinha de fita cassete, tentava imitar aquela pessoa. Com três ou quatro meses que eu voltei eu já estava melhor e as pessoas ficaram admiradas com a mudança. Eu ia de bicicleta pra rádio, mais ou menos uns 10km e trabalhava de graça”.

As coisas começaram a tomar outro rumo seis meses depois. A Rádio Recôncavo, onde Roque não havia conseguido sequer gravar o teste, o chamou para fazer parte da equipe de esporte e trabalhar com carteira assinada. De início ele conta que teve medo de decepcionar, mas aceitou o desafio e seguiu em frente, o que permitiu uma grande virada em sua carreira.

“Com quinze dias, Antônio Carlos, o repórter policial, ia sair de férias e lá, antigamente, o repórter policial tinha um estúdio dentro da delegacia. Então Álvaro [o dono da rádio] perguntou se eu queria substituir Antonio Carlos durante os 30 dias de férias dele e eu disse sim. A prática da época era pegar o livro de ocorrências da polícia, transcrever o que estava ali e ler e pensei que eu tinha que criar algo diferente”.

Já no segundo dia trabalhando como repórter policial, um empresário da cidade foi preso sob a acusação de sonegação de impostos e o caso mobilizou vários veículos de imprensa. O jovem Roque, após muita insistência junto à delegada, foi o único que conseguiu chegar até o preso e convencê-lo a dar uma entrevista. “Uma entrevista que seria de dois minutos, eu fiz em meia hora. Eu comecei a construir minha carreira ali. Ganhei cinco anos consecutivos o prêmio de melhor repórter de Santo Antônio de Jesus, na Rádio Recôncavo. Depois fui pra Indaiá, uma rádio concorrente, voltei pra Recôncavo, fui pra Rádio Clube até decidir trabalhar na Baiana, em Candeias. Aí foi uma mudança de interior pra uma Região Metropolitana”.

Após sair da Rádio Baiana em 2009, Roque Santos veio para Camaçari e criou o site RMS Notícias, que no futuro iria se chamar Bahia no Ar. “Enquanto isso eu procurei uma rádio que tivesse o perfil da Baiana, fui pra Rádio Sucesso, que naquela época ninguém ouvia, não tinha tradição, mas graças a Deus, com o tempo nós consolidamos a audiência. Passei por altos e baixos, porém, em 2016 eu arrendei o programa e já estamos com um ano e seis meses de programa Bahia no Ar”.

Para o Roque, o preconceito racial é presença constante na vida dos negros. “Infelizmente, o negro mata um leão por dia, a cada dia ele tem que provar que ele é bom, que tem capacidade. Você dorme provando e acorda provando isso. Até hoje eu sofro”. Ele contou uma história de racismo que sofreu em uma cobertura esportiva no sul do país.

“Eu viajava muito fazendo futebol e um dia eu fui pra Caxias do Sul. Chegando lá eu senti o racismo na pele. Quando eu e meus colegas desembarcamos na rodoviária de Caxias do Sul, primeiro que taxista nenhum queria nos levar. Nós fomos rejeitados por aproximadamente 30 taxistas. Nós só conseguimos chegar no hotel quando finalmente um taxista aceitou nos levar. À noite nós saímos pra jantar e mais uma vez enfrentamos dificuldade para conseguir um táxi. Quando chegamos no restaurante, o pessoal olhava pra gente com aquele olhar de rejeição mesmo. Quando terminamos de jantar, ficamos na frente do restaurante e nenhum táxi parou. Nós ligamos para Xavier, que na época era volante do Juventude e tinha atuado no Vitória, e informamos a ele e ele foi lá e deu uma carona pra gente”. Roque disse que o jogador também é negro e sofreu o mesmo preconceito naquela cidade.

Hoje, Roque Santos é formado em Direito e pretende realizar o exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) já no ano que vem. Ele aconselha o povo negro a ter coragem e lutar pelos seus sonhos.

“Acreditar sempre nos seus sonhos, não baixar a cabeça, não se vitimizar, no sentido de se dar por vencido, achar que realmente não é capaz. Você é capaz, sim. Vá superando todas as dificuldades porque eu sirvo como exemplo, se eu há 20 nos atrás carregava feira, vendia lanche e mesmo assim fui trabalhar na rádio e tive a oportunidade de superar todos os obstáculos e estou aqui, por que outra pessoa não tem a capacidade? É só acreditar e superar tudo. Acredite sempre, negrada!”.

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