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Raymundo Mônaco escreve: "Os percalços do Camaforró - Muita gente e pouco espaço"

Escrito por Raymundo Mônaco em 06 de Julho de 2015
[Raymundo Mônaco escreve:

Já faz muitos anos, mas dá gosto lembrar as alegres “festas de São João” de Camaçari, da fartura, da chegada do inverno (21 de junho), trezenas de Santo Antônio, São Pedro. Festejadas de forma modesta, as atrações eram nós mesmos cantando, tocando e dançando de casa em casa. Podia não parecer  tão divertido, mas era um tempo bom.

A verdadeira tradição das festas juninas em Camaçari caracterizava-se por grupos da sociedade, que saíam visitando amigos e parentes e, bem vindos, levavam alegria aos lares onde eram recebidos com fartas mesas de comidas e bebidas. A população era pequena, mas se sentia feliz e  primava por acolher a todos sem distinção. 

Falar sobre as festas de São João realizadas em nossa histórica Camaçari é sempre prazeroso, opiniões contrárias e  favoráveis nos  permite comparar os velhos tempos com o momento atual, e nos transporta a um novo tempo, o tempo desta  era inusitada  do “Camaforró”  que, com o passar dos anos, cresceu assustadoramente em  termos de público. ficando  conhecida como a festa do  esmaga sapo:  muita gente, pouco espaço e que sufoco!!!  

Essa manifestação, hoje se encontra superada por grandes shows com artistas famosos e reúne a comunidade em volta de palcos, camarotes e caramanchão mantendo estilos antigos produzindo a conhecida mecânica do forró.

Antecediam a tudo isto as festas realizadas nas escolas públicas e particulares, nos órgãos  públicos, empresas, enfim, onde podia se festejar, tinham como finalidade a ludicidade, mostrando a face que durante todo esses anos  vem marcando a vida cultural de nossa gente.   

Aceito nos quatro cantos da cidade o Camaforró cresce a cada ano. Com o passar do tempo vem figurando entre as maiores festas de São João da Bahia, elevando com isso o fluxo de frequentadores que para aqui se deslocam procedentes de cidades vizinhas, inclusive  da capital; aí, o “Camaforró” vira um inferno,  passando de entretenimento  para sacrifício e a disputa pelo metro quadrado (m²) é ato de bravura, não se consegue andar.                                               

O Camaforró foi criado em junho de 1989 pelo então prefeito Tude em inesquecível estreia  realizada na Praça Abrantes com direito a sanfoneiros, muita música de forró, fogos, ornamentação típica do São João, muito licor, canjica e milho verde.Recordações até hoje gravadas  na memória  dos  precursores.

A partir do ano seguinte a festa tomou um novo rumo mudando de local passando a ser  realizada na Av. Comercial com dois palcos, um em cima e outro embaixo, dezenas de atrações e participação de artistas famosos como Dominguinhos, Genival Lacerda, Elba Ramalho, Geraldo Azevedo, Zé Ramalho e muitas  bandas  de sucesso.

O prefeito  Ellery  ao assumir a  PMC em  1993  desativou o  Camaforró,  voltando  a ser realizado pelo  patrono  Tude  a partir de 1997,  já no “Espaço 2000” onde permanece até hoje. Apesar das consequências, cresce a cada ano o número de frequentadores e os problemas continuam. Algum  dispositivo há de se encontrar, cobrar entradas beneficentes, como no  caso do camarote, poderá  ser a solução.

No Camaforró edição 2015, verificou-se novos contratempos motivados, não pela organização ou  por infraestrutura insuficiente, mas, pelo previsto excesso  de demanda  provocado pela superlotação do “Espaço  2000”, onde as pessoas mal conseguiam se mexer  dentro e fora dos  limites da área da  festa.

Em resumo, as dificuldades não foram superadas e a mesma estrutura já conhecida deixou muito a  desejar. A quantidade de sanitários químicos não suportou o peso  e filas enormes  se formavam para se fazer  “xixi”,  a espera para as mulheres  era em média de quarenta minutos.

O  excesso de barracas  complicou a vida dos  foliões, lama  provocada por borra do recapeamento asfáltico e água empoçada tingiram de preto os belos tênis e sapatos da turma,  segurança  insuficiente, engarrafamento a partir da Entrada da Cascalheira e o “empurra- empurra” de sempre,  para o acesso à  folia. Tudo considerado natural pelos organizadores.

Como se não bastasse, inventaram este ano  um tal de “Camarote solidário”, cujo acesso se dava através do pagamento de cinquenta reais  por casal, renda  convertida em prol da APAE espécie de ingresso trocado por pulseira. Superlotado o camarote causou medo e receio de desabamento. É cada ideia de tirar o chapéu! O projeto 1 Kg de alimentos  perecíveis  não funcionou.

Por mais que a PMC busque a perfeição, o “Camaforró” está ficando problemático,  próximo do colapso. Na véspera de São João  por volta das  vinte e uma horas  não se conseguia mais entrar e nem sair do espaço 2000. Barril puro...

Diante das nuances amostradas vislumbra-se retornar aos velhos tempos, reunindo vizinhos e amigos resgatando o São João de outrora, festejado  nas ruas  ou mesmo  na casa de  amigos  como se fazia antigamente. Aí então, teríamos alternativas   para sair da panela de pressão do  “Espaço 2000”. Poderíamos cantar com  alegria  os versos dos sanfoneiros Luiz Gonzaga e Zé Dantas  “Ai que saudades que sinto, das noites de São João, das noites tão brasileiras na  fogueira, sob o luar do sertão”.

Um grande abraço, esperando que no próximo ano as festas de São João e o Camaforró sejam  repensados  para alegria   de todos  e felicidade geral   do povo de  nossa terra.

J.R. Mônaco

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