Artigo

210 ANOS DE CONFLITOS E RESISTÊNCIA NEGRA NO TERRITÓRIO DE CAMAÇARI.  

Escrito por Diego Copque em 26 de Dezembro de 2018
[210 ANOS DE CONFLITOS E RESISTÊNCIA NEGRA NO TERRITÓRIO DE CAMAÇARI.  ]

210 ANOS DE CONFLITOS E RESISTÊNCIA NEGRA NO TERRITÓRIO DE CAMAÇARI.  

Diego Copque 

Há 210 anos ocorreu um importante conflito entre as forças que representavam a Coroa portuguesa e escravos rebelados em Vila de Abrantes. A partir da fuga de escravos de Nazaré das Farinhas em 26 de dezembro de 1808. No dia 04 de janeiro de 1809, escravos da etnia haussá foram responsáveis pela fuga em massa de cativos da cidade do Salvador e de diversas plantações do Recôncavo da Bahia, inclusive da Vila de Abrantes. A rebelião escrava foi derrotada às margens do Rio da Prata, localizado hoje no bairro Parque Verde em Camaçari.  

Segundo Santos Titara, 

O riacho da Prata, em cujas bordas teve lugar em janeiro de 1809, o renhido combate dos Ussás, ahi completamente desbaratados pelo valoroso Cabo de Policia Bernardo Francisco de Siqueira, que à frente de 80 homens da Torre, marchou do lugar da Feira, a attacal-os alli, onde soube, que estavam acampados. (TITARA, 1835, p. 26).1 

Diz Pierre Verger a respeito: 

Contaram-se vários mortos; os escravos revoltados não queriam se render e o Conde da Ponte tinha dado a ordem de atirar sobre todos aqueles que resistissem. Oitenta e nove prisioneiros foram reconduzidos em 6 de janeiro. Alguns dias depois, vinte e três outros foram enviados da região de Nazaré; todos foram condenados a trabalhar, acorrentados no serviço de transporte de entulhos e de terra para fazer o aterro da futura Praça do Teatro. (VERGER,1987,p. 333). 2 

O processo de abolição da escravidão no Brasil foi lento e gradual. Em 1826 foi firmado um acordo entre o Brasil e a Inglaterra na perspectiva de extinguir o tráfico negreiro em três anos, a partir deste acordo foram promulgadas leis que não surtiram resultado. Em 1871 foi decretada a Lei do ventre Livre que deu origem ao Fundo de Emancipação de Escravos, este fundo era destinado à libertação dos escravos. Essa lei estabeleceu a matrícula geral de escravos e a criação de juntas municipais de libertação. Após matricula e classificação dos cativos, os recursos arrecadados eram destinados à indenização dos proprietários de escravos libertados.  

Em 1872 foi realizado o primeiro recenseamento demográfico do Brasil, através deste censo constatamos que Vila de Abrantes estava classificada na décima posição em número de escravos na Província da Bahia,3 Vila de Abrantes contabilizou um total de 13.466 habitantes com 2.909 brancos, a população negra e parda livre era de 2.388 habitantes, 2.198 caboclos e 5.791escravos. A cidade do Salvador possuía 18 freguesias e concentrava 16.468 escravos e Vila de Abrantes com apenas três freguesias possuía um número superior a um terço dos escravos da capital, o que nos revela que Abrantes além de ser uma área de grande importância para a agricultura era também um significativo reduto escravista. Vale ressaltar que nesta época as freguesias que compunham Vila de Abrantes eram: Abrantes, São Bento do Monte Gordo e São Pedro do Assú da Torre, que era a maior paróquia em número de população livre e escrava. 4 

Em 1879 foram qualificados 12 escravos em Vila de Abrantes para serem libertados pelo fundo de emancipação.5 Todos os 12 cativos eram casados, destes 05 escravos homens e 01 mulher eram casados com pessoas livres. Em 1885 foi promulgada a Lei dos sexagenários e no dia 13 de maio de 1888 como sabemos a Lei Áurea, que a pesar de extinguir a escravidão no Brasil não criou mecanismos de integração do negro a sociedade brasileira. O Brasil foi o último país das Américas que aboliu a escravidão. No início do século XX, em seu livro de memórias titulado de Minha Formação, o político e abolicionista brasileiro Joaquim Nabuco em tom profético afirmou: "A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil.” 

 A resistência negra no território de Vila de Abrantes foi marcada por importantes episódios, que foram objeto de investigação para o livro em fase de captação de recursos para publicação, Do Joanes ao Jacuípe, uma história de muitas querelas tensões e disputas locais. Do professor, historiador, compositor letrista, pesquisador da história de Camaçari desde 2001 Diego de Jesus Copque.  

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