Artigo

Raymundo Mônaco escreve: O carnaval e o saudosista (1ª parte)

Escrito por Raymundo Mônaco em 20 de Maio de 2015
[Raymundo Mônaco escreve: O carnaval e o saudosista (1ª parte)]

“CRÔNICAS DA CIDADE”


2015.63 – Ano IV
J.R. Mônaco
Bacharel em Direito, Consultor
Político. Testemunha Ocular da
História.

 

No retiro do Carnaval, registrei com imenso prazer o e-mail enviado por Carlos Magno Paixão da Silva, dileto amigo, ex- colega do Ginásio São Tomaz de Cantuária, com quem na juventude desfrutei do convívio como seu consorte naquela memorável casa de ensino. Magno retorna ao passado renovando em prosa reminiscências de antigos carnavais e ao tom do romantismo com que os descreve, busca no deleite referendar trechos poéticos no contexto das recordações, demonstração de sentimentos, desenganos e desilusões do Carnaval.



SAUDADES DOS ANTIGOS CARNAVAIS
(autor desconhecido) 


Vai-se ao longe a festa...
Batalhas de confetes, arremessos de serpentinas,
Beijos roubados às pressas, desejos em surdina,
Carnaval de encantos, de pura magia...
Fui pierrô apaixonado em noites de marchinhas,
Como uma rosa vermelha, tomei seu corpo aveludado e
bebi no cálice da paixão e valsei toda a madrugada,
o Clube nos recebia em Júbilo...és a minha eterna colombina
Hoje...
Desprendeu-se da alegria, desgarrou-se da folia,
Sem olhares da ternura, copo na mão,
Festa química, fugaz, irascível... vazia de amor,
Ninguém sai dela apaixonado, uma ilha de desencontro,
olhar em desvario, desfile de almas em solidão.
Tanto riso.. .quanta saudade...
Inda bem...
Que eu minha linda bailarina e algumas borboletas,
Vamos ficar na montanha mais alta das Gerais ... e bailar noite inteira.
Tudo em nome do amor que é eterno.

 


2ª PARTE
A MICARETA E O CAMAFOLIA


E por falar em velhos Carnavais, saudades, reflexões, etecetera, os fatos nos remete á antigas micaretas, carnaval fora de época, evento que reinou por muitos anos nas principais cidades da Bahia, poucas sobreviveram,

Em Camaçari, desde a década de 50 a cidade realizou várias micaretas protagonizadas por Cordões (Blocos) animados pelas moçoilas da cidade, que garbosamente fantasiadas de odaliscas, ciganas, colombinas, desfilavam em carros alegóricos cedidos por clubes carnavalescos da capital. Durante o dia mascarados (caretas) disfarçados animavam a festa simbolizando a alegria.

Nas semanas que antecediam às micaretas os organizadores de blocos e batucadas tendo à frente Ouri Cavalcante saiam de porta em porta arrecadando doações para ajudar nos preparativos. A estrutura da festa como sempre era bancada pela Prefeitura e a cada ano a refrega se tornava melhor, principalmente com a vinda de pessoas de outras cidades. Inesquecíveis Micaretas!

A Praça da Igreja Matriz com o seu tradicional “Coreto”, apesar de não possuir iluminação acendiam-se lâmpadas (gambiarras) mantidas pela força do gerador da usina geradora do Dr. Mario Beléns que em dias de festa prolongava o fornecimento de energia até altas horas.

Sandra Parente retrata em seu livro “Camaçari sua história sua gente” as primeiras micaretas realizadas. “O Coringa do Samba” do Bairro do Triangulo foi o primeiro Cordão (1953) e os componentes desfilavam em filas um ao lado do outro , A “ Batucada de Valdomiro” do Alto da Cruz foi uma das mais tradicionais da época, o “Afoxé do Belarmino” formado pelo pessoal ligado ao Candomblé e o “Afoxé Filhos de Eulina” já faziam naquela época parte do nosso folclore.

Os foliões entoavam musicas imortais como jardineira, Lata d’agua na Cabeça, Maria Escandalosa, Chegou General da Bandar e outros sucessos, músicos da Banda da PM e do Corpo de Bombeiros vinham de Salvador tocar na festa.

Fatos curiosos ocorriam. Fantasias do Carnaval de Salvador eram usadas pelos foliões, não se sabendo como conseguiam. A cada Micareta surgiam novidades, incluindo o disputado concurso Rainha e Princesas da Micareta. Os votos eram passados e quem mais arrecadava em dinheiro vencia a disputa.

A partir das seis horas da noite a Praça da Igreja Matriz se enchia de foliões, bebidas alcoólicas só conhaque, cachaça e vinho de jurubeba, cerveja era raridade, os bailes de Micareta, no inicio eram realizados nas dependências do antigo Mercado Municipal, onde se dava o chamado “Baile da Jega”, promovido pelos feirantes.

Muitos bailes aconteciam nas salas do Grupo Escolar Gonçalo Muniz na Praça Abrantes, os grã -finos dançavam na casa do médico Dr. Palmeira, o salão nobre do velho prédio da Câmara foi muitas vezes utilizado para bailes, o prédio do Cinema, antigo Clube Social foi palco de grandes bailes. Não faltavam lança-perfumes. Deles todos, o mais famoso foi o “Baile da Segunda Feira Gorda” promovido pelo Clube Ceramus organizado por Joaquim Simões tocava a celebre e famosa orquestra “Os Turunas” de Alagoinhas”.

Os blocos mais conhecidos das Micaretas foram “Delírios e Delicias”, “Amantes do Havaí”, o “Kamassa” de D. Euza Freitas,” Foliões de Camaçari” de José Benjamin, “As Multicores” comandadas por Esmeralda Simões e Sandra Parente, o “Vem não vai” de Bira Corôa”, os Blocos Bafo do Jegue” e “Bafo da Mironga” formado pela rapaziada contemporânea, recordações de tempos que não voltam mais.

O ciclo de micaretas se findou na administração do ex-prefeito Humberto Ellery que na tentativa de agradar a todos ao mesmo tempo realizou a última Micareta criando um sem número de blocos e que só trouxe problemas. Em seguida veio o “Camafolia” instituído pelo prefeito Tude, festival de trios e blocos, camarotes, caixas de isopor e barracas, considerado prévia do Carnaval de Salvador, evento bem acolhido pela população e jamais visto em Camaçari.

Por questões econômicas teve fim na administração do Prefeito Luiz Caetano. Dai, silenciaram as guitarras foram recolhidos os abadás, desapareceram os trios, entristeceram as ruas. Restaram os carros de propaganda.

Camaçari atualmente se dedica a festas cívicas e decadentes lavagens, a exemplo temos o aniversario da cidade 28 de setembro, 7 de setembro na Gleba E, em Parafuso pela tarde, desfiles colegiais em Abrantes e Monte Gordo, sem dúvidas opção louvável em face ao valor histórico cultural dos atos.

Assim, de volta ao princípio fundamental nos unimos em sentimento para acrescentar que o Carnaval produz saudades, uma série de efeitos transcendentais que se repetem a cada ano, outras festas não. Considerações à parte, a “ Festa de Arembepe” festa do povão e despedida do Carnaval baiano.

Sem poder ocupar o espaço desejado entre nós e em face aos novos rumos de progresso vivenciados pelo município, é provável que nunca mais festas como a Micareta e Camafolia se repitam em Camaçari, embora permaneça a eterna lembrança e as saudades de um passado que por certo a história não arquivará.

Um grande abraço ao saudosista Carlos Magno e vamos em frente aguardando futuros carnavais.

 



J.R. Mônaco
[email protected]

RECORDAR É VIVER!

 

 

 

 

 

 

 

 

  
 

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