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Intolerância religiosa segue como desafio em Camaçari, apontam lideranças de diferentes crenças

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Intolerância religiosa segue como desafio em Camaçari, apontam lideranças de diferentes crenças

Lideranças religiosas defendem respeito, diálogo e valorização da diversidade de crenças no município.

Por: Camaçari Notícias

Foto: Imagem ilustrativa

A Semana Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, celebrada em 21 de janeiro, reacende o debate sobre o respeito à diversidade de crenças em Camaçari. O Camaçari Notícias ouviu representantes de diferentes tradições religiosas, que destacaram a importância do diálogo, da fé e da valorização dos saberes ancestrais como caminhos para enfrentar o preconceito.

Para o babalorixá João Borges, a data representa mais do que uma lembrança simbólica. “O 21 de janeiro é um marco de resistência e afirmação. Foi criado após o falecimento da Mãe Gilda, vítima de perseguição religiosa. Para nós, é um chamado à luta viva. Celebramos os Ilê Axé como verdadeiras faculdades de filosofia africana que sobreviveram à diáspora. Nosso axé permanece inabalável”, afirmou.

Ao avaliar a situação no município, ele alertou que a intolerância mudou de forma, mas continua presente. “Em Camaçari, assim como em toda a Bahia, a intolerância não desapareceu; ela se sofisticou. Hoje aparece no preconceito velado no trabalho, na perseguição nas redes sociais e na tentativa de demonizar nossos rituais. O terreiro, que é espaço de ciência, ética e acolhimento, é pintado como seu oposto”, destacou.

Segundo João Borges, as violências enfrentadas pelas casas de axé são múltiplas. “Há a violência física, com invasões e ataques; a psicológica e social, com isolamento das famílias de santo; e a violência epistêmica, que é a negação dos nossos saberes, quando a escola ignora a filosofia africana ou quando nossos rituais são tratados como folclore”, explicou.

O babalorixá também avaliou que o racismo religioso ainda é naturalizado pela sociedade. “Ele se manifesta quando um toque para os orixás é visto como perturbação da ordem, mas megacultos não são questionados. Aparece na linguagem, quando termos como ‘macumba’ são usados como ofensa, e na invisibilidade dos nossos símbolos nos currículos escolares e nos espaços públicos”, afirmou.

Para ele, o diálogo inter-religioso é um instrumento fundamental no combate à desinformação. “O diálogo verdadeiro não é para todos virarem uma coisa só, é sobre respeito à diferença. Ele acontece quando líderes de outras religiões conhecem o terreiro como aprendizes e entendem que nossos cantos são poemas filosóficos e nossas ervas são medicinais”, pontuou.

Entre as mudanças necessárias, João Borges defendeu três pilares: educação, aplicação da lei e reconhecimento público. “É preciso inserir a história e a filosofia africana nas escolas, aplicar a Lei nº 14.532/2023, que tipifica o racismo religioso, e reconhecer os terreiros como equipamentos culturais e de saúde comunitária”, afirmou.

Já o apóstolo Maurício Santa Fé ressaltou que a discussão sobre intolerância deve partir do princípio da fé como elemento de união. “Jesus não foi um intolerante religioso. Ele nunca pregou sobre religião, mas sobre fé. Quando curava, dizia: ‘a tua fé te salvou’. A discussão nunca foi sobre religião, é sobre fé, e a fé une todas as religiões”, disse.

O líder religioso também destacou o papel da fé na vida das pessoas. “Uma pessoa sem fé é uma pessoa sem perspectiva de vida. Quando alguém acredita em algo, se move, se desloca e consegue propagar aquilo que crê. Eu costumo dizer que primeiro você coloca o pé e depois Deus coloca o chão”, declarou.

Para Maurício Santa Fé, o desconhecimento sobre as diferentes tradições religiosas alimenta o preconceito. “As pessoas acham que só elas têm razão. Precisamos respeitar. Existem religiões milenares, como o hinduísmo, que antecedem o cristianismo em milhares de anos. É preciso respeitar a tradição e a escolha de cada povo e colocar em prática a paz que Jesus nos ensinou”, afirmou.

A ialorixá Ivonete Mota destacou o valor cultural e histórico do candomblé e o protagonismo feminino na condução dos terreiros. “Ser do candomblé é gostoso, mesmo com os preconceitos. É uma religião de patriarcado e matriarcado, mas a maioria das casas é conduzida por mulheres, as ialorixás e as iaquequerês. O candomblé deixou um legado”, afirmou.

Ela explicou que sua ligação com a religião vem desde a infância. “O candomblé faz parte da minha caminhada desde quando eu nasci. Sou neta de indígena, de cigano e de africano. Eu não escolhi a religião, fui escolhida pelo orixá para estar nesse lugar de fala”, contou.

Ivonete também denunciou que a intolerância religiosa ainda é recorrente no município. “Em Camaçari, ela é praticada todos os dias contra pessoas de religiões de matriz africana e espíritas. Inclusive, já é a segunda vez que eu sofro esse tipo de violência aqui”, relatou.

Segundo a ialorixá, o município precisa reafirmar seu papel como território de liberdade religiosa. “Camaçari é um município grande, é um município-mãe, e precisa ser libertário. Não podemos viver sufocados por outras religiões, porque o espaço é para todos”, pontuou.

Ela também criticou a falta de apoio efetivo após os episódios de intolerância. “Muita gente se manifesta nas redes sociais contra a intolerância, mas, na prática, não temos apoio. Na hora da situação, quase ninguém se envolve para nos defender”, afirmou.

Os três líderes religiosos convergem na defesa do respeito às diferentes crenças, da ampliação do conhecimento sobre as religiões e da aplicação efetiva das leis como caminhos para reduzir os casos de intolerância religiosa. Em um município marcado pela diversidade cultural e espiritual, o combate ao preconceito segue como um desafio diário e uma pauta permanente de cidadania e direitos humanos.

Por: Igor Santiago

 

 

 

 

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