Ciência e Saúde

Avó faz relato chocante dos últimos dias de vida de sua neta no HGC

Escrito por Geovânia Cruz em 21 de Julho de 2016
[Avó faz relato chocante dos últimos dias de vida de sua neta no HGC]

(À direita) Mariellen na festinha junina da escola deste ano. (À esquerda) na maca do corredor do HGC onde ficou seus últimos dias de vida.

Mariellen Lima dos Santos, de 11 anos, deu entrada no Hospital Geral de Camaçari (HGC) na quarta-feira (13), morreu no domingo (17) e foi sepultada na quarta-feira, 19 de Julho de 2016, dia em que estaria completando 12 anos. Dona Ednalva, avó da menina recebeu a reportagem do Camaçari Notícias em sua casa, e fez um relato chocante dos dias em que a criança esteve internada no HGC: “Eles deixaram minha neta morrer à míngua”, disse ela.

A princípio, os sintomas que Mariellen apresentava eram de uma simples virose. Ela sentia dores de cabeça, teve febre e vômito e apresentava uma pequena coriza. Após atendimento inicial no Geral, ela permaneceu na unidade sendo medicada com remédios para combater o vômito e a febre. No mesmo período, ela passou por exames de sangue e urina. A alta médica só aconteceu depois das 21h do mesmo dia, e a menina voltou para casa.

“No dia seguinte, eu percebi que ela estava molinha, sem ânimo. Não tinha febre, nem vomitava, mas, não estava completamente sã. Na sexta-feira ela permaneceu da mesma forma”, comentou Dona Ednalva, acrescentando que no sábado, o vômito voltou e a família foi apressadamente para o Geral. “De retorno ao hospital, o tormento já começou na entrada da emergência. Minha neta teve que ficar deitada nas cadeiras, até que a ficha dela fosse feita. O sistema de informática muito lento, só adiava ainda mais o atendimento”, completou. Depois de esperar por algum tempo, finalmente, a menina foi atendida. Desta vez, além dos sintomas que apresentou inicialmente, ela também reclamava de dores na barriga.

“A médica receitou Dipirona e remédio para suspender o vômito, e mandou que a colocassem no soro”, comentou Dona Ednalva e completou: “Nesta mesma noite foram feitos novos exames de sangue e um Raio X do tórax. Enquanto esperávamos os resultados , minha neta foi colocada em uma maca no corredor da unidade pediátrica. A maca quebrada, por duas vezes a parte onde ficava sua cabeça despencou”.

Na opinião de Dona Ednalva e de seu filho Jorge, pai de Mariellen que também participou desta entrevista, a equipe médica do Hospital Geral foi omissa no atendimento. “Durante a madrugada saíram os resultados dos exames, mas, como a médica plantonista não deu a devida atenção, simplesmente, se trancou na sala de repouso dos plantonistas, os exames só foram avaliados após a troca de turno, por outra médica, por volta das 11h do domingo”.

Tendo conhecimento do resultado dos exames, Dona Ednalva foi comunicada pela médica que a criança precisaria fazer alguns exames no Couto Maia, em Salvador, hospital referência no tratamento de doenças infecciosas. A médica lhe explicou que, se os resultados dos exames dessem positivos, Mariellen continuaria o tratamento em Salvador, caso contrário, ela seria trazida de volta para o HGC.

“Depois que a médica me explicou como seria o procedimento, fui em casa rápido, peguei correndo algumas coisas de minha neta, pensando que ela poderia ficar no outro hospital, e voltei para o Geral. Procurei a médica e lhe disse que já estava pronta para ir”. Neste momento, Dona Ednalva entendeu que a transferência de sua neta não seria tão fácil, como parecia, mas, dependia da Regulação Municipal, para realizar os procedimentos necessários.

“A cada minuto que passava minha neta morria”, falou Dona Ednalva com a voz embargada, e continuou desabafando: “Me fiz de forte para poder suportar tudo aquilo. Vi minha neta agonizando, se esvaindo e os médicos passavam e olhavam como se estivesse vendo ali um saco de lixo”.

As horas se passavam e o exame que a médica disse que deveria ser feito logo, não acontecia. A dor de ver a neta naquela situação, só aumentava. Ninguém dava respostas sobre a transferência da menina. “Eu conversei com uma assistente social e falei de todo o sofrimento. Pedi que, pelo amor de Deus, ela fizesse alguma coisa e lhe perguntei se o presente que daria a minha neta, no dia do seu aniversário, seria um caixão. Infelizmente foi o que aconteceu”, lamenta Dona Ednalva.

“Depende da Regulação”, esta era a resposta que avó e pai ouviam dos médicos, aos quais imploravam ajuda. Segundo Jorge, depois que conversou com o diretor do hospital, explicando que a conversa que ouvia era que sua filha poderia estar com meningite, o diretor respondeu que o Couto Maia não tinha vaga disponível: “Eu mesmo liguei para o hospital e a pessoa que me atendeu disse que ainda não tinham recebido nenhuma solicitação da Regulação de Camaçari. Ele também me disse que, por se tratar de doença grave, se o hospital não tem vaga, logo é providenciado”.

O momento em que a avó percebeu que estava perdendo sua neta querida, foi quando a médica lhe orientou que ela fosse para casa e comesse alguma coisa. “Nessa hora meu coração apertou e eu senti que quando voltasse, não mais veria minha neta viva”.

Atendendo a recomendação da médica, a avó e o pai de Mariellen foram até em casa, enquanto o avô ficava no hospital como acompanhante. Por volta das 09h30 eles receberam uma ligação do avô dizendo que voltassem para o hospital, porque a menina havia piorado: “Quando chegamos ao local e vimos médicos e enfermeiros surgindo de tantos lugares. Todos em cima de minha filha, às portas fechadas, tentando reanimá-la. Eu olhei por uma fresta na porta e a única coisa que vi, foi o braço dela” comentou Jorge.

A notícia do óbito da criança veio minutos depois. “Fizemos tudo o que pudemos para salvar sua filha”, disse a médica ao dá a notícia mais triste que a família poderia receber naquele momento.  “Eles não fizeram tudo o que puderam. Se tivessem feito, ela estaria viva. Eles foram omissos no atendimento”, desabafou Ednalva.

Mas, do que Mariellem morreu? Quando recebeu a notícia da médica, esta informou que ela faleceu por insuficiência respiratória, ou parada cardíaca. “Como não há certeza de nada, nós pedimos que o corpo dela passasse por uma necropsia”, afirmou Jorge.

O que intrigou a família foi toda insistência da médica para que a família aceitasse o laudo emitido pelo Geral e sepultasse a criança, sem passar pelo IML. “Ela veio com uma conversa estranha de que, para poupar o nosso sofrimento eles mesmos poderiam dar a documentação. Eu perguntei se era possível, e a médica disse que daria um jeito”, denunciou Jorge.

Assim como tentou convencer o pai da criança para desistir da necropsia, a mesma médica procurou a avó, dizendo que o corpo poderia demorar até um ano para ser liberado. “Ela também disse que iam cortar minha neta e abrir seu corpo. Eu falei que o pai deveria decidir”.

A família agora aguarda o laudo do Instituto Médico Legal Nina Rodrigues, que deve sair em seis meses. A partir do resultado, tomarão as medidas necessárias contra a referida unidade de saúde. “Estamos fazendo isso para que outras ‘Mariellens’ não morram esquecidas naquele lugar, como foi com a minha neta”, completou a avó.

O SEPULTAMENTO

O corpo de Mariellen foi sepultado na quarta-feira (19), dia do seu aniversário, como já mencionado anteriormente. “Eu nunca vi um funeral tão lindo como o dela”, comentou uma pessoa que esteve presente no momento.

Familiares, amigos, professores e colegas do Colégio Cantuária onde cursava o 6º Ano, amigos da Igreja Católica, onde era coroinha, professores e colegas da Fanfarra Estudantil de Camaçari (Fanesc) foram prestar as últimas homenagens a esta menina que, segundo a avó conta: “Foi muito amada!”

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