Trabalhadores são resgatados após décadas em condições análogas à escravidão na Bahia
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Camaçari
Primeiro episódio da série especial pelos 268 anos de emancipação política de Camaçari resgata as origens de Vila de Abrantes, antiga Aldeia do Divino Espírito Santo, por meio de relatos históricos, memórias de moradores e patrimônios preservados pela comunidade.
Por: Camaçari Notícias
Foto: Deivison Silva
A história de Camaçari começa muito antes da cidade que conhecemos hoje. Para conhecer as raízes do município, é preciso voltar no tempo e chegar a Vila de Abrantes, território marcado pela presença dos povos originários, pela chegada dos jesuítas e pela formação do antigo Aldeamento do Divino Espírito Santo.
Em comemoração aos 268 anos de emancipação política de Camaçari, o Camaçari Notícias inicia uma série especial de reportagens que percorre diferentes localidades do município para resgatar histórias, personagens, tradições e patrimônios que ajudam a compreender a identidade camaçariense.
No primeiro episódio, a reportagem esteve em Vila de Abrantes, onde passado e presente se encontram em construções, celebrações religiosas e, principalmente, nas memórias de quem acompanhou as transformações da comunidade.
Segundo o historiador Diego Copc, a formação de Camaçari está diretamente ligada ao processo de ocupação do território do Recôncavo Baiano e à presença dos povos originários.
“O processo de gênese e evolução do Recôncavo da Bahia passa pela formação territorial da Vila da Nova Abrantes do Espírito Santo. Território esse que, antes da invasão dos portugueses no século XVI, por volta do ano de 1500, era ocupado pelos povos originários, que também chamamos de povos indígenas, majoritariamente pelos povos Tupinambás.”
O historiador explica que a região fazia parte de um território conhecido como Quirimurê, denominação atribuída à área do Recôncavo localizada às margens da Baía de Todos-os-Santos.
Foi nesse contexto que surgiu o Aldeamento do Espírito Santo, considerado um marco para a formação do município. “Nesse processo de origem e evolução da Vila da Nova Abrantes do Espírito Santo, a partir da fundação do Aldeamento indígena, denominado Aldeamento do Espírito Santo, que dá origem à formação do município de Camaçari, esse aldeamento foi fundado no dia 29 de maio de 1558 e, a posteriori, 200 anos depois, foi elevado ao patamar de vila, sendo a primeira vila indígena do Brasil”, destacou Diego Copc.
Entre os principais símbolos desse passado está a Paróquia do Divino Espírito Santo, cuja história está diretamente ligada à formação da comunidade.
O pároco padre Fabrício Lima destaca a importância histórica da igreja e das tradições religiosas mantidas ao longo dos séculos. “A Paróquia do Divino Espírito Santo aqui em Vila de Abrantes é a oitava mais antiga e a primeira do Brasil a ser a titular dedicada ao Divino Espírito Santo. Essa contribuição é a festa mais antiga no Brasil. É a terceira pessoa da Santíssima Trindade que tem a sua própria festa no dia de Pentecostes.”
Segundo o sacerdote, uma celebração histórica também foi recentemente resgatada pela paróquia. O chamado Tedeu, de 20 de fevereiro de 1823, passou novamente a integrar o calendário paroquial. “Recentemente restauramos um evento chamado Tedeu, de 20 de fevereiro de 1823. São 203 anos, e restauramos essa festa, que agora passará a ser efetiva no nosso calendário paroquial.”

Além das celebrações, a igreja também preserva imagens e outros elementos que fazem parte do patrimônio histórico da comunidade. “Nós dispomos de algumas imagens tombadas que pertencem ao patrimônio histórico da nossa paróquia e vão passar, e já estamos aguardando o processo de restauração. Uma delas é a imagem de Nossa Senhora das Dores, a que recebia os vestidos de noiva e também os próprios cabelos como promessas e graças alcançadas.”
A própria estrutura da igreja, segundo o padre, ajuda a contar essa história.
“Nós temos ainda as plantas de quando esse espaço ainda era o Aldeamento do Divino Espírito Santo, com a chegada dos jesuítas através do Rio Joanes. A própria arquitetura da igreja testemunha a sua historicidade.”
Se os documentos e patrimônios ajudam a reconstruir o passado, são as histórias dos moradores antigos que dão vida a essa memória.
A moradora Augusta dos Passos dos Santos, conhecida como Dona Nadinha, vive em Vila de Abrantes há cerca de seis décadas e acompanhou de perto as mudanças da localidade.
Ela lembra de uma época em que as ruas ainda eram tomadas pela areia e a comunidade mantinha uma relação mais próxima entre os moradores. “Vila de Abrantes é um lugar histórico. Antigamente, quando eu cheguei aqui, há 60 anos, as ruas não tinham asfalto, era tudo areia. Naquela época, a convivência entre os moradores era boa, todo mundo se unia, se conhecia.”
A rotina também era diferente. Segundo Dona Nadinha, muitas famílias trabalhavam na roça e passavam boa parte do dia fora de casa. “Quanto à rotina das pessoas daqui, todo mundo trabalhava na roça, saía de manhã e chegava em casa de tarde.”
A Igreja do Divino Espírito Santo também ocupava um espaço importante na vida da comunidade. As celebrações religiosas reuniam moradores e visitantes, especialmente durante as festas dos padroeiros. “A relação da comunidade com a Igreja do Divino Espírito Santo é quando tinha as missas, que se reuniam as pessoas que vinham de fora. Eram umas missas bonitas.”
Entre as celebrações lembradas por Dona Nadinha estão as festas de São Sebastião, realizada em janeiro, e do Divino Espírito Santo, tradicionalmente celebrada em maio. “Entre as festas do padroeiro, tinha São Sebastião, que era no dia 20 de janeiro, e Divino Espírito Santo, que era em maio.”
Entre relatos históricos, patrimônios religiosos e memórias dos moradores, Vila de Abrantes revela uma parte fundamental da trajetória de Camaçari.
Conhecer essa história significa compreender que o município foi construído a partir de diferentes povos, culturas, tradições e acontecimentos que atravessaram séculos. Preservar esses registros é também garantir que as próximas gerações possam reconhecer as raízes do lugar onde vivem.
No primeiro episódio da série especial do Camaçari Notícias, Abrantes mostra que, para entender os 268 anos de Camaçari, é preciso voltar ao lugar onde essa história começou.
Por: Igor Santiago
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