Usamos cookies para personalizar e melhorar sua experiência em nosso site e aprimorar a oferta de anúncios para você. Visite nossa Política de Cookies para saber mais. Ao clicar em "aceitar" você concorda com o uso que fazemos dos cookies

Notícias

/

Camaçari

/

Memórias de Seu Dadu revelam a história, as tradições e as raízes do Quilombo da Cordoaria

Camaçari

Memórias de Seu Dadu revelam a história, as tradições e as raízes do Quilombo da Cordoaria

Morador há 70 anos da comunidade, Florisvaldo Ferreira Gomes relembra antigas caminhadas até a feira de Camaçari, tradições religiosas e a importância do beneficiamento da mandioca para a identidade quilombola

Por: Camaçari Notícias

Foto: Deivison Silva

A história de Camaçari não está apenas nos documentos, nos prédios antigos ou nos registros oficiais. Ela também está nas memórias de homens e mulheres que acompanharam as transformações do município e preservam, por meio de suas histórias e saberes, parte da identidade de seus territórios.

Na Comunidade Quilombo da Cordoaria, na região de Vila de Abrantes, essa memória permanece viva na voz de moradores que carregam décadas de experiências. Entre eles está Florisvaldo Ferreira Gomes, conhecido popularmente como Seu Dadu, que vive há cerca de 70 anos na região e guarda lembranças de diferentes momentos da trajetória da comunidade.

“Meu nome civil é Florisvaldo Ferreira Gomes, conhecido popularmente como Seu Dadu. Moro há 70 anos aqui na região de Cordoaria, que hoje se chama Quilombo da Cordoaria. A mãe da minha esposa e a bisavó dela também nasceram aqui”, conta.

Entre as lembranças mais antigas, Seu Dadu destaca as viagens que os moradores faziam até a feira de Camaçari. Segundo ele, o percurso começava ainda durante a madrugada, quando homens e mulheres se reuniam na comunidade para seguir até a sede do município levando animais e produtos que seriam comercializados.

“Uma das minhas lembranças mais antigas é de quando a gente ia para a feira aos sábados, durante a madrugada. Vários homens e mulheres se reuniam, cada um com uma lanterna, e seguíamos daqui de Cordoaria para Camaçari. Levávamos os animais e, nas cabeças das mulheres, iam os balaios com alguns produtos que não podiam ser transportados pelos animais, como o beiju mole, a mangaba, garrafas de dendê, entre outras coisas, para vender”, relembra.

A rotina, além de representar uma forma de sustento para as famílias, revela como os moradores mantinham uma relação próxima com a produção da terra e com os costumes que faziam parte do cotidiano da comunidade.

Tradições que ficaram na memória

Com o passar dos anos, algumas dessas práticas foram se transformando ou deixaram de fazer parte da rotina da comunidade. Entre as lembranças de Seu Dadu estão também as manifestações religiosas que reuniam os moradores em momentos de fé e convivência.

“Naquele tempo, tínhamos as rezas e quase toda casa fazia caruru. No mês de junho, havia a trezena de Santo Antônio, que hoje não existe mais”, recorda.

Para ele, essas tradições representam parte de uma história que precisa ser lembrada e conhecida pelas novas gerações. As rezas, o caruru e a trezena não eram apenas manifestações religiosas, mas também momentos de encontro e fortalecimento dos laços comunitários.

Mandioca e beiju mantêm saber ancestral

Embora reconheça que a agricultura esteja atualmente menos presente na comunidade, Seu Dadu destaca que o beneficiamento da mandioca continua fazendo parte da realidade de muitas mulheres de Cordoaria. Para ele, a produção do beiju mantém uma ligação direta com conhecimentos e práticas agrícolas transmitidos ao longo das gerações.

“Apesar de a agricultura estar um pouco esquecida, temos aqui o beneficiamento da mandioca. Indiretamente, as mulheres da comunidade acabam fazendo agricultura, porque precisam da mandioca para produzir o beiju. Também são necessários o coco e a goma. Dessa forma, elas participam da etapa final de um processo que começa na agricultura, mostrando que são remanescentes de uma prática agrícola ancestral”, explica.

O beiju, presente na alimentação e na cultura da comunidade, também carrega, segundo Seu Dadu, um significado histórico relacionado à resistência e à sobrevivência da população negra.

“O beiju foi um dos primeiros alimentos consumidos quando nossos ancestrais fugiram das senzalas e chegaram aos quilombos. Segundo a literatura, onde houvesse cinco indivíduos e um pilão de couro, aquele local já poderia ser considerado um quilombo. O pilão de couro servia para processar a mandioca e, a partir dali, já era possível confeccionar o beiju”, afirma.

A produção do alimento representa, portanto, mais do que uma atividade tradicional. É também uma forma de preservar conhecimentos relacionados à mandioca e ao modo de vida das comunidades quilombolas, mantendo vivos saberes transmitidos entre gerações.

A importância de conhecer a história de Camaçari

Ao falar sobre Cordoaria, Seu Dadu também chama a atenção para a necessidade de os próprios moradores conhecerem melhor a história do município. Para ele, compreender o passado é fundamental para fortalecer o sentimento de pertencimento e valorizar os diferentes territórios que formam Camaçari.

“A mensagem que eu deixo é que o camaçariense precisa conhecer Camaçari de antigamente e Camaçari dos dias de hoje, porque a maioria das pessoas com quem converso não possui senso de pertencimento e não está inteirada da história de Camaçari. Algumas pessoas sequer são daqui; vieram apenas para ganhar dinheiro aqui”, afirma.

Na visão do morador, existe ainda um distanciamento entre parte da população e a história do município, especialmente em relação às comunidades tradicionais, que preservam importantes elementos da formação cultural de Camaçari.

“Lá fora, os intelectuais conhecem mais sobre Camaçari do que as pessoas que moram aqui”, destaca.

As memórias de Seu Dadu ajudam a revelar uma Camaçari que muitas vezes não aparece nos registros oficiais. É a Camaçari das caminhadas durante a madrugada para chegar à feira, dos balaios carregados de produtos, das rezas, do caruru, da trezena de Santo Antônio e da mandioca transformada em beiju.

São histórias que permanecem vivas na memória de quem as testemunhou e que ajudam a compreender a formação de comunidades como Cordoaria. Ao preservar essas lembranças, moradores como Seu Dadu contribuem para que as novas gerações conheçam não apenas o município que Camaçari se tornou, mas também os caminhos percorridos por aqueles que ajudaram a construir sua história.

O episódio sobre a Comunidade Quilombo da Cordoaria integra a série especial do Camaçari Notícias pelos 268 anos de emancipação política de Camaçari. A produção percorre diferentes territórios do município para resgatar memórias, personagens, tradições e patrimônios que ajudam a contar a história de Camaçari a partir das pessoas que vivem e fazem parte desses lugares.

Por: Igor Santiago

 

 

 

Relacionados