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CNCast: escola pública de Camaçari transforma combate ao bullying em prática permanente

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CNCast: escola pública de Camaçari transforma combate ao bullying em prática permanente

Projeto desenvolvido no CEMC combina arte, escuta, participação das famílias e protocolo para acolher estudantes e enfrentar situações de violência.

Por: Camaçari Notícias

Um apelido repetido, uma exclusão aparentemente silenciosa ou uma imagem compartilhada sem autorização podem produzir consequências que ultrapassam os muros da escola. Foi a partir dessa realidade que o episódio 95 do CNCast, exibido na última terça-feira (1º), discutiu o bullying e o cyberbullying entre crianças e adolescentes e apresentou uma experiência desenvolvida na rede pública de ensino de Camaçari.

Apresentado por Gisa Conceição, o programa recebeu as professoras Edite Souza Ramos e Rosemary Onofre e a vice-diretora Silvana Santos, do Centro de Educação Municipal de Camaçari (CEMC), localizado no Phoc II. Durante quase uma hora e meia de conversa, as educadoras mostraram como a escola transformou relatos de sofrimento em ações de prevenção, acolhimento e responsabilização.

Idealizado por Edite Souza Ramos, também conhecida na comunidade escolar como professora Vilma, o projeto “Bullying e Cyberbullying: Conscientizar para Prevenir e Construir uma Cultura de Respeito” é desenvolvido há cerca de oito anos. Professora de Língua Portuguesa e Língua Inglesa, ela acumula mais de três décadas de atuação na rede municipal e relaciona a criação da iniciativa à própria experiência: quando criança, também sofreu humilhações e perseguições no ambiente escolar.

A percepção de que outros estudantes enfrentavam situações semelhantes levou a professora a construir um trabalho permanente, que não se limita a palestras. O projeto envolve atividades pedagógicas, pesquisas, avaliações, produção artística e espaços de convivência nos quais os estudantes podem refletir sobre o impacto das palavras e atitudes.

Um espaço para falar e ser ouvido

Entre as ações está o Cantinho da Amizade, criado como um ambiente de prevenção ao bullying. No espaço, os estudantes encontram trabalhos como a Árvore do Bem e do Mal, o Semáforo do Respeito, murais educativos e representações de celulares, computadores e outros dispositivos digitais.

No Semáforo do Respeito, o vermelho representa comportamentos que precisam ser interrompidos; o amarelo convida o estudante a refletir antes de falar, agir ou publicar; e o verde reúne atitudes associadas ao respeito, à responsabilidade e à empatia.

A professora Rosemary Onofre explicou que a arte funciona como uma forma de expressão para estudantes que nem sempre conseguem falar diretamente sobre aquilo que estão vivendo. Cartas, desenhos, frases e trabalhos coletivos ajudam a revelar constrangimentos, inseguranças e situações de exclusão.

Durante o episódio, as educadoras relataram o caso de uma estudante constrangida depois que um objeto pessoal encontrado em sua mochila foi exposto diante dos colegas. O fato, inicialmente tratado pelos envolvidos como “zoeira”, exigiu a intervenção da escola.

“Só é brincadeira se todo mundo estiver se divertindo”, resumiu Silvana Santos. Para a vice-diretora, quando apenas uma parte do grupo ri e outra pessoa se sente humilhada, a situação deixa de ser uma brincadeira.

Bullying também acontece fora da escola

O episódio explicou que o bullying presencial pode envolver apelidos, humilhações, ameaças, agressões, exclusão e comentários sobre corpo, cabelo, cor, religião, deficiência ou condição social. O cyberbullying utiliza redes sociais, aplicativos de mensagens, jogos e outras plataformas digitais para reproduzir ou ampliar essas agressões.

No ambiente virtual, uma imagem, montagem ou mensagem pode alcançar muitas pessoas em poucos segundos e permanecer circulando mesmo depois de apagada. Situações iniciadas nos grupos de WhatsApp ou nas redes sociais também chegam à escola e interferem na convivência e na aprendizagem.

As educadoras chamaram atenção ainda para a responsabilidade de quem presencia, incentiva ou compartilha o conteúdo. O estudante que não produziu a publicação, mas contribuiu para sua circulação, também participa da exposição.

A discussão ganha maior relevância desde que a Lei Federal nº 14.811/2024 incluiu o bullying e o cyberbullying no Código Penal e estabeleceu medidas de proteção para crianças e adolescentes nos ambientes educacionais. Para a equipe do CEMC, entretanto, a resposta não deve ser apenas punitiva. É necessário interromper a violência, proteger quem sofreu e fazer com que o estudante responsável compreenda as consequências de suas ações.

Escola adotou protocolo de atendimento

Além do trabalho pedagógico, o CEMC criou neste ano um protocolo para registrar e acompanhar as situações relatadas pelos estudantes. O procedimento foi elaborado pela coordenadora Maria Célia, que não participou do episódio, com o apoio da gestão escolar e a partir das orientações da Secretaria Municipal da Educação.

O atendimento começa com a escuta dos envolvidos e das possíveis testemunhas. A escola busca preservar quem fez a denúncia, dialoga com os estudantes e comunica as famílias. Quando a situação continua ou ultrapassa a capacidade de intervenção pedagógica, o caso pode ser encaminhado ao Conselho Tutelar, aos Guardiões Escolares ou às autoridades policiais.

Segundo os dados apresentados no programa, 12 protocolos foram preenchidos em março. A equipe destacou que um único registro pode envolver vários estudantes. Os números diminuíram nos meses seguintes e apenas duas situações consideradas mais graves precisaram ser encaminhadas às autoridades policiais.

A redução, entretanto, não significa que o problema tenha desaparecido. Para a gestão, um dos resultados mais importantes é o fato de os próprios estudantes terem aprendido a identificar comportamentos ofensivos, procurar ajuda e defender colegas que estejam sendo excluídos.

Família precisa participar

A resistência de algumas famílias também apareceu como um desafio. Segundo as educadoras, ainda existem responsáveis que tratam a situação como uma brincadeira comum ou rejeitam inicialmente a possibilidade de o próprio filho estar praticando bullying.

Para aproximar os responsáveis, a unidade criou um conselho de pais e pretende realizar oficinas específicas sobre respeito, convivência e acompanhamento do comportamento dos filhos. A proposta é mostrar que a criança pode agir de uma forma em casa e adotar outro comportamento quando está sob a influência de um grupo.

No encerramento, Silvana Santos comparou a proteção dos estudantes a uma visão que precisa ser construída em conjunto. “A escola é um olho e a família é o outro. Sozinha, a escola não consegue enxergar a totalidade”, afirmou.

Demandas que ultrapassam a sala de aula

A conversa também revelou que a gestão escolar recebe situações que vão além do bullying. Crises de ansiedade, suspeitas de violência familiar, dificuldades de aprendizagem e possíveis casos de neurodivergência fazem parte do cotidiano relatado pelas profissionais.

Na ausência de atendimento especializado suficiente, professores, coordenadores e gestores acabam funcionando como a primeira rede de escuta de estudantes e familiares. A equipe do CEMC relatou que trabalha de forma integrada para acolher as demandas e orientar a busca por psicólogos, terapeutas, unidades de saúde e demais serviços da rede de proteção.

Esse cenário também interfere no trabalho pedagógico. Enquanto precisa garantir aprendizagem, a escola administra conflitos, identifica situações de vulnerabilidade e procura convencer famílias sobre a importância do acompanhamento especializado.

Ao apresentar a experiência do CEMC, o CNCast ampliou uma discussão que interessa a toda a rede pública de Camaçari: projetos de prevenção precisam deixar de depender apenas da iniciativa individual de professores e se transformar em práticas permanentes, com formação profissional, protocolos, participação das famílias e acesso efetivo à saúde mental.

O episódio completo “Bullying e cyberbullying entre crianças e adolescentes” está disponível no canal do Camaçari Notícias no YouTube.

 

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