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Queda histórica no preço do cacau reacende expectativa de chocolate mais barato em 2026

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Queda histórica no preço do cacau reacende expectativa de chocolate mais barato em 2026

Após recuo de mais de 60% nas cotações internacionais, mercado projeta superávit na produção, mas especialistas alertam que a redução pode demorar a chegar ao consumidor final

Por: Camaçari Notícias

Foto: André Fofano / GovBa

Em apenas um ano, as cotações internacionais do cacau registraram uma queda expressiva de 63,1%, movimento que reacendeu a esperança dos consumidores por preços mais baixos de produtos como chocolate, manteiga de cacau, pó, nibs e massa de cacau. A dúvida agora é se essa retração será, de fato, sentida no bolso em 2026 e se o próximo ano será mais “doce” para chocólatras e profissionais do setor.

De acordo com projeções da Organização Internacional do Cacau (ICCO), a safra 2025/2026 deverá apresentar um superávit de 287 mil toneladas. Para o ciclo 2026/2027, a expectativa é de um excedente de 267 mil toneladas. O cálculo considera a diferença entre produção e processamento do fruto.

O cenário atual contrasta fortemente com o observado na safra 2023/2024, quando um déficit histórico de aproximadamente 400 mil toneladas impulsionou os preços a patamares recordes, acima de US$ 11,5 mil por tonelada. Atualmente, a cotação gira em torno de US$ 4,2 mil, representando uma redução de cerca de 63,5%.

Segundo a presidente executiva da Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau, Anna Paula Losi, a forte oscilação dos preços está relacionada à concentração da produção mundial na África e aos impactos das mudanças climáticas.

“A produção de amêndoas de cacau é muito concentrada no continente africano, especialmente na Costa do Marfim e em Gana. As mudanças climáticas, com eventos extremos, afetaram a produtividade e aumentaram a incidência de pragas, o que levou a safras muito ruins nesses países. Além disso, houve aumento do consumo entre 2023 e 2024, principalmente em países mais ricos, ao mesmo tempo em que a oferta diminuía”, explicou.

De acordo com ela, a alta persistente dos preços acabou reduzindo a demanda global, sobretudo em 2025. “A Europa, a Ásia e o Brasil tiveram queda significativa no consumo de derivados de cacau. Ao mesmo tempo, as condições climáticas na África melhoraram, permitindo uma recuperação parcial da produção. O superávit atual não se deve apenas a uma produção maior, mas também à redução da demanda”, avaliou.

No calendário agrícola de 2025/2026, a combinação entre oferta em recuperação e consumo mais fraco ajuda a explicar a retração das cotações. Na última quinta-feira (19), os preços do cacau atingiram o nível mais baixo em mais de dois anos e meio na Bolsa de Londres, pressionados pelas preocupações com estoques não vendidos na Costa do Marfim e em Gana.

Na capital inglesa, a tonelada do cacau fechou em queda de 162 libras (7%), a 2.146 libras, após tocar o menor patamar em mais de dois anos e meio, de 2.133 libras. Em Nova York, o recuo foi de 7,7%, com a commodity sendo negociada a US$ 3.058 por tonelada, depois de mínima de US$ 3.052.

O cacau é uma das commodities agrícolas mais relevantes do mundo, envolvendo desde pequenos produtores até grandes indústrias processadoras. A produção mundial é fortemente concentrada na África, com destaque para Costa do Marfim, Gana, Nigéria e Camarões. O ranking dos maiores produtores inclui ainda Equador e Brasil:
1º Costa do Marfim
2º Gana
3º Equador
4º Nigéria
5º Camarões
6º Brasil

Na África Ocidental, a oferta mostra sinais de recuperação após duas safras ruins. Costa do Marfim e Gana, responsáveis por cerca de 60% da produção global, devem operar em níveis próximos da normalidade. Para 2025/2026, a produção marfinense pode chegar a 1,85 milhão de toneladas, enquanto Gana deve alcançar cerca de 650 mil toneladas.

No Brasil, a Bahia se mantém como principal produtora nacional, com forte impacto na economia regional. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que o estado produziu, em 2023, 139.011 toneladas de amêndoas de cacau, crescimento de 0,6% em relação a 2022.

Já números do Valor Bruto da Produção Agropecuária (VBP), divulgados pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) em agosto de 2024, apontam que o valor da produção de cacau na Bahia saltou de R$ 1,9 bilhão em 2023 para uma previsão de R$ 5,4 bilhões em 2024. Com isso, a cultura do cacau subiu da 6ª para a 3ª posição no ranking estadual, ficando atrás apenas da soja (R$ 14,2 bilhões) e do algodão (R$ 6 bilhões).

As principais áreas produtoras baianas estão localizadas no Litoral Sul e no Baixo Sul, com destaque para os municípios de Ilhéus, Wenceslau Guimarães e Ibirapitanga.

Apesar disso, o setor ainda enfrenta dificuldades. Mesmo com capacidade instalada para processar 275 mil toneladas, o Brasil moeu cerca de 190 mil toneladas em 2025, o pior resultado desde a pandemia. Como o país importa amêndoas e exporta derivados como licor, manteiga e pó, a indústria ainda sente os efeitos da demanda fraca e dos custos elevados.

Sobre a possibilidade de redução nos preços dos produtos finais, especialistas defendem cautela. Durante o período de alta do cacau, a indústria reformulou receitas, reduzindo a proporção de manteiga de cacau e ampliando o uso de gorduras alternativas, aromatizantes e recheios.

Agora, embora haja expectativa de queda, o repasse ao consumidor tende a ser lento. “Assim como a alta demorou a chegar na ponta, a queda também deve levar tempo. Produtos que foram negociados com preços mais elevados ainda estão no mercado. É provável que os derivados intermediários, como licor, manteiga e pó, sintam primeiro essa redução, antes do chocolate chegar mais barato ao consumidor”, explicou Anna Paula Losi.

Segundo ela, o impacto da alta levou entre seis e dez meses para ser percebido no varejo e, mesmo assim, não atingiu o valor máximo das cotações internacionais. “Os analistas indicam que a redução também deve levar entre seis e dez meses para começar a se refletir efetivamente nos preços finais”, concluiu.

Assim, apesar do alívio no mercado internacional, o consumidor ainda deve esperar um tempo até sentir, de fato, a queda no preço do chocolate e de outros derivados do cacau nas prateleiras.

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