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Bahia registra 759 ocorrências de racismo e intolerância religiosa; maioria dos casos acontece em Salvador

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Bahia registra 759 ocorrências de racismo e intolerância religiosa; maioria dos casos acontece em Salvador

Dados da Polícia Civil revelam que a maioria das denúncias se concentra na capital baiana e envolve ataques, inclusive em ambientes digitais, contra religiões de matriz africana.

Por: Camaçari Notícias

Foto: Arianne Ribeiro / Bahia Notícias

A Bahia registrou cerca de 759 ocorrências relacionadas ao crime de racismo, que engloba práticas discriminatórias por raça, cor, religião ou procedência nacional. Os dados, obtidos junto à Polícia Civil da Bahia, foram divulgados nesta quarta-feira (21), Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, pelo Bahia Notícias (BN).

Do total de registros, parte significativa envolve ocorrências em ambientes digitais ou meios de comunicação. Ao todo, 23 denúncias tiveram origem em ataques praticados nesses espaços, o que representa 3,03% dos casos. Salvador concentra a maior parte das ocorrências, com 329 boletins de ocorrência registrados no último ano, correspondendo a cerca de 43,6% do total no estado. Desses, oito envolvem crimes cometidos em ambientes virtuais.

Para compreender o fluxo de acolhimento das denúncias e o andamento das investigações, o BN ouviu o delegado Ricardo Amorim, titular da Delegacia Especializada de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa (Decrim), que completou um ano de funcionamento.

Segundo o delegado, uma das principais ações da unidade em 2025 foi ampliar a divulgação da existência e do papel da delegacia. “A gente fez muita divulgação da unidade, inclusive em terreiros, igrejas e outros templos, para nos colocar à disposição. Percebemos, a partir disso, um aumento da demanda”, explicou.

Amorim destaca que o atendimento especializado tem encorajado vítimas a denunciarem situações que, muitas vezes, se arrastaram por décadas sem registro formal. “Muitas pessoas relatam que sofrem intolerância religiosa há 20 anos, mas nunca tinham denunciado. Hoje, vêm registrar porque sabem que existe uma delegacia especializada”, afirmou.

A Decrim funciona dentro do Centro Policial de Cidadania e Diversidade (CPCD), no Engenho Velho de Brotas, e atua na repressão e investigação de crimes de racismo e intolerância religiosa, além de casos de LGBTfobia e violências contra pessoas idosas.

Racismo religioso e violência cotidiana

Apesar da diversidade religiosa presente na Bahia, o delegado afirma que a maioria esmagadora dos casos envolve religiões de matriz africana. “A delegacia é aberta para todas as religiões, mas, na prática, em Salvador, 99% dos casos são contra religiões de matriz africana”, ressaltou.

As violências, segundo Amorim, acontecem em diferentes contextos e espaços, incluindo transportes públicos. Há registros frequentes em vagões do metrô de Salvador, onde vítimas são alvo de ofensas simplesmente por utilizarem guias, ojás ou vestimentas associadas ao candomblé.

Em alguns casos, as condutas também se enquadram como injúria racial, crime cuja pena varia de dois a cinco anos de prisão. “A gente analisa cada situação para definir se o caso se enquadra na legislação de crimes raciais ou no Código Penal, a fim de adotar o procedimento adequado”, explicou.

Investigação e provas

O delegado pontua que as investigações utilizam todos os tipos de provas possíveis, a depender das circunstâncias do crime. Testemunhas têm papel fundamental, embora nem sempre estejam dispostas a colaborar espontaneamente. “Muitas vezes as pessoas dizem que não querem se envolver, mas elas podem ser intimadas para relatar o que aconteceu. Por isso, é importante que a vítima consiga, ao menos, o nome de testemunhas”, orientou.

Amorim ressalta ainda que crimes de racismo e intolerância religiosa envolvem elevada subjetividade, já que, em muitos casos, a violência ocorre de forma silenciosa. “Nem sempre há palavras explícitas. Às vezes é um impedimento de entrada ou um tratamento diferenciado. Nesses casos, precisamos demonstrar a intenção do autor”, explicou.

Ainda assim, segundo ele, a responsabilização é possível por meio da análise do contexto e da reunião de depoimentos que comprovem que o comportamento está diretamente relacionado à discriminação religiosa.

Crimes virtuais e prevenção

Além das ocorrências presenciais, a Decrim também lida com um número crescente de crimes cometidos em ambientes virtuais. De acordo com o delegado, muitos autores acreditam, de forma equivocada, que não serão identificados ao agir nas redes sociais.

“A delegacia conta com um núcleo cyber, especializado na investigação de crimes cibernéticos. Na maioria das vezes, conseguimos identificar os autores e encaminhar os casos à Justiça, mostrando que mesmo atrás de um celular a pessoa será responsabilizada”, afirmou.

Sobre o perfil dos envolvidos, Amorim explica que não há grandes discrepâncias entre autores e vítimas. Os dados apontam equilíbrio de gênero e uma leve predominância de suspeitos na faixa etária entre 40 e 60 anos, com registros em diferentes cidades e até em ambientes escolares.

Diante desse cenário, o delegado reforça que a prevenção e a educação social são pilares do trabalho da Polícia Civil. Ao longo de 2025, equipes da Decrim realizaram ações educativas em escolas, hospitais, shoppings e no sistema de transporte público. “O objetivo é orientar vítimas sobre seus direitos e, ao mesmo tempo, alertar possíveis autores de que esses crimes são punidos e há uma estrutura específica para combatê-los”, concluiu.

 

 

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