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Sociedade como rede de proteção: corresponsabilidade no combate à violência contra a mulher

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Sociedade como rede de proteção: corresponsabilidade no combate à violência contra a mulher

Projeto do MP-BA destaca o papel de amigos, familiares e vizinhos na identificação precoce de sinais de abuso e na prevenção do feminicídio

Por: Camaçari Notícias

Foto: Ilustrativa / Freepik

O ditado popular “em briga de marido e mulher, não se mete a colher”, que por décadas silenciou a sociedade diante da violência doméstica, vem sendo substituído por uma nova lógica: a da corresponsabilidade. Autoridades e instituições de proteção defendem que o enfrentamento à violência contra a mulher precisa funcionar como uma “rede bem costurada”, capaz de envolver não apenas a vítima, mas também familiares, amigos e vizinhos.

Diante de estatísticas ainda alarmantes de agressões e feminicídios no país, iniciativas como o projeto “Luto por Elas”, do Ministério Público da Bahia (MP-BA), ampliam o foco da atuação para além da mulher agredida. A proposta é fortalecer a rede de apoio como primeiro filtro de proteção. Segundo especialistas, quando o entorno percebe os sinais e age de forma conjunta, reduzem-se as brechas que permitem que a violência evolua até o desfecho mais extremo.

Violência que começa de forma silenciosa

A violência doméstica raramente surge de forma abrupta. Ela costuma escalar gradativamente, iniciando-se por comportamentos que nem sempre são reconhecidos como crimes, mas já representam sinais de alerta. Criado em 2020, o Formulário Nacional de Avaliação de Risco (FONAR) é um instrumento que ajuda a identificar fatores que indicam a possibilidade de a mulher vir a sofrer algum tipo de violência no contexto familiar ou afetivo.

De acordo com a promotora de Justiça Sara Gama, coordenadora do Núcleo de Enfrentamento à Violência contra a Mulher (Nevid/MP-BA), o primeiro passo é fazer com que a própria mulher reconheça que pode estar inserida em uma dinâmica abusiva. “Muitas vezes ela não acredita que a situação possa chegar ao extremo. Tivemos o caso de uma acolhida que foi ameaçada com uma faca de mesa pelo companheiro, mas, por não ser pontiaguda, ela achou que aquilo não era uma ameaça real”, exemplifica.

Sinais de alerta e desequilíbrio de poder

Identificar padrões de comportamento é fundamental para evitar que a violência avance para níveis mais graves. Segundo Roana Dantas, assessora jurídica do Nevid/MP-BA e da 1ª Promotoria de Direitos Humanos, o chamado “violentômetro” vai desde piadas ofensivas até o ato de matar. “Existem também condutas que não são tipificadas como crime, mas são moralmente questionáveis, como o ‘gelo’ ou o ‘ghosting’ (ignorar propositalmente), que já demonstram um desequilíbrio de poder na relação”, explica.

Reconhecer esses sinais ajuda a prevenir violências de natureza moral, patrimonial, psicológica, sexual ou física, além de reduzir o risco de feminicídio.

Não julgar, não criticar, não acusar

As mulheres vítimas de violência não pertencem a um único perfil social. Estão presentes em todas as classes, religiões, níveis de escolaridade e etnias. O que há em comum, segundo especialistas, é o vínculo afetivo com o agressor. “Na maioria dos casos, o agressor faz parte do ciclo de afeto da vítima: é companheiro, ex-companheiro ou até filho. Muitas vezes ela nem deseja que ele seja punido”, explica Sara Gama.

Para quem está ao redor, perceber a violência nem sempre é simples. Quando há agressão física, os sinais são visíveis, mas em casos de violência psicológica ou moral, os indícios são mais sutis. O isolamento costuma ser o primeiro deles. O agressor tende a afastar a mulher dos círculos sociais e a minar sua autonomia financeira, tornando-a dependente. Mudanças de comportamento também podem surgir, como dispersão no trabalho ou tentativas de chorar escondida em locais reservados.

A orientação do Nevid é clara: não julgar, não criticar e não confrontar a vítima. “Ela já sente vergonha de viver aquela situação. O melhor é se aproximar, ficar disponível e ouvir com empatia”, afirma a promotora. Roana Dantas reforça: “Se você critica a mulher por não terminar a relação, acaba produzindo exatamente o efeito desejado pelo agressor: o afastamento da rede de apoio”.

Apoio prático pode salvar vidas

Além do acolhimento emocional, a rede de apoio pode agir de forma concreta para proteger a vítima. Entre as orientações estão:

  • Código de emergência: combinar um sinal ou mensagem para que a mulher possa pedir ajuda de forma discreta;
  • Documentação: incentivar e ajudar a guardar provas, como prints de mensagens e fotos de lesões, em locais seguros;
  • Segurança: manter cópias de documentos pessoais ou uma pequena reserva financeira para uma possível saída emergencial;
  • Canais de denúncia: qualquer pessoa pode denunciar, inclusive de forma anônima, pelo telefone 180 ou por canais locais.

Atendimento integral na Casa da Mulher Brasileira

Quando a violência se concretiza, a estrutura pública deve ser acionada. Em Salvador, a Casa da Mulher Brasileira oferece atendimento integral e multidisciplinar, funcionando 24 horas por dia. No local, a mulher encontra serviços da Delegacia, Ministério Público, Defensoria Pública, Tribunal de Justiça, além de apoio psicológico e possibilidade de abrigamento.

Casos atendidos pela instituição demonstram a importância desse acolhimento. Roana Dantas recorda o atendimento a uma mulher que sobreviveu a 17 facadas. Após passar pelo ciclo de proteção, ela retornou meses depois, recuperada e qualificada profissionalmente por meio de cursos voltados a mulheres em situação de vulnerabilidade. “As cicatrizes físicas ficaram, mas o que marcou o coração dela foi o amor e o acolhimento que recebeu”, relata.

Onde buscar ajuda

  • 180 – Central de Atendimento à Mulher (nacional)
  • 190 – Polícia Militar (emergências)
  • 127 – Nevid MP-BA
  • Casa da Mulher Brasileira: atendimento 24h, na Avenida Tancredo Neves, Caminho das Árvores (ao lado do Hospital Sarah)
  • Sala de Acolhimento: Shopping Bela Vista, Alameda Euvaldo Luz, 92, Horto Bela Vista

A substituição do silêncio pela corresponsabilidade tem se mostrado um passo essencial para interromper o ciclo da violência. Ao reconhecer sinais, oferecer apoio e acionar os serviços de proteção, a sociedade passa a integrar a linha de frente no combate ao feminicídio e na defesa da vida das mulheres.

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